O que é hermenêutica?


É a ciência que nos ensina os princípios, as leis e os métodos de interpretação. Ela segue a Filologia Sacra, e precede imediatamente a Exegese. Hermenêutica e Exegese se relaconam na mesma forma que a teoria se relaciona coma prática. Uma é ciência, a outra, arte.

A Necessidade do Estudo da Hermenêutica

O apóstolo Pedro admite, falando das Escrituras, que entre as do Novo Testamento "há certas coisas difícies de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras (as do Antigo), para a própria destruição deles". E para maior desgraça e calamidade, quando estes ignorantes nos conhecimentos hermenêuticos se apresentam como doutos, torcendo as Escrituras para provar seus erros, arrastam consigo multidões à perdição.

Esse fato se deve principalmente pela queda do homem que se tornou incapaz de compreender a revelação divina. Tais ignorantes, pretensos doutos, sempre se têm constituído em heresiarcas ou falsos, desde os falsos profetas da antigüidade até os papistas da era cristã, e os iddiistas e russelitas de hoje. E qualquer pregador que ignora esta importante ciência se encontrará muitas vezes perplexo, e cairá facilmente no erro.

Não há livro mais perseguido pelos inimigos, nem livro mais torturado pelos amigos, que a Bíblia, devido à ignorância da sadia regra de interpretação. Há quem a use a seu próprio gosto, multilando-a, tergiversando ou torcendo-a para nossa perdição. Para se entender um texto da Sagrada Escritura é importante e necessário posicionar-se quanto ao tempo em que o texto ocorre e principalmente o que Deus quer revelar.

Uma breve observação geral a respeito da dita linguagem nos fará mais patente ainda a grande necessidade do conhecimento de sadia interpretação para o estudo proveitoso das Escrituras. Certos doutos, por exemplo, que têm vivido sempre "incomunicados" com respeito à linguagem chocante ou incompatível com seu ideal imaginário de revelação divina, tudo isso pela superabundância de todo gênero de palavras e expressões figuradas e simbólicas que ocorrem nas Escrituras.

É da maior importância uma disposição especial para o estudo proveitoso da Sagrada Escritura, com uma exegese bíblica sadia como fundamento.

Como poderá uma pessoa irreverente, estudar e interpretar devidamente um livro tão profundo e altamente espiritual como a Bíblia? Necessariamente, tal pessoa julgará o seu conteúdo como o cego as cores. Para o estudo e boa compreensão da Bíblia necessita-se, pois, pelo menos, de um espírito respeitoso e dócil (para um estudo proveitoso e uma reta compreensão da Escritura), amante da verdade (desejoso de conhecer a verdade), paciente no estudo e dotado de prudência (saber iniciar a leitura pelo mais simples e prosseguir para o mais difícil.

A Bíblia é a revelação do Onipotente, é o milagre permanente da soberana graça de Deus, é o código divino pelo qual seremos julgados no dia supremo, é o Testamento selado com o sangue de Cristo.

O discípulo humilde e dócil que adota a Cristo por Mestre, verá e entenderá a verdade, porque Deus promete "guiar os humildes na justiça, e ensinar aos mansos o seu caminho" (Sl 25:9).

As Escrituras, necessariamente, devem ser ricas em conteúdo e inesgotáveis, como as entranhas da terra. Da mesma forma, sem dúvida, Deus propôs que em algumas partes fossem profundas e de difícil penetração. Mas não nos acomodemos como alguns textos bíblicos apenas, devemos nos propiciar melhor conhecimento de toda a Palavra de Deus, não apenas crendo, mas também defendendo-a.

Princípios Hermenêuticos Entre os Judeus

1. Definição de História da Hermenêutica
Há diferença entre a história da hermenêutica como ciência e a história dos princípios hermenêuticos. A primeira teria começado pelo ano de 1567 A.D., quando Flácio Ilírico fez a primeira tentativa de um tratamento cientifíco da Hermenêutica; enquanto a última teria seu ponto de partida bem no começo da era cristã.
Uma história dos princípios hermenêuticos procura responder a três questões:
· Qual o ponto de vista prevalecente a respeito das Escrituras?
· Qual a concepção dominante do método de interpretação?
· Quais as qualidades consideradas essenciais a sua intérprete da Bíblia?

2. Princípios de Interpretaçã entre os Judeus
Para dar uma visão geral do assunto, abaixo há uma síntese dos princípios adotados pelos judeus na interpretação da Bíblia.

a) Judeus Palestínicos – Eles tinham profundo respeito à Bíblia como a infalível Palavra de Deus. Consideravam sagradas até mesmo as letras, e seus copistas tinham o hábito de contâ-las, a fim de evitar que alguma se perdesse na transcrição. Ao mesmo tempo, tinham a lei em mais alta estima do que os Profetas e os Escritos Sagrados. Daí ser a interpretação da lei o seu grande objetivo. Faziam clara distinção entre o mero sentido literal da Bíblia (tecnicamente chamado peshat) e sua exposição exegêtica (midrash). "Uma afeição e motivo dominantes do midrash era investigar e elucidar, por todos os meios exegéticos viáveis, as possíveis aplicações e significações veladas da Escritura" (Osterley e Box, The Religion and Worship os the Synagogue, p. 75). De modo geral, a literatura midrash pode ser dividida em duas classes:
1) Interpretação de caráter legal, tratando de assunto de obrigações impostas pela lei em sentido estritamente legalístico (Hlakhah) e
2) interpretações de tendência mais livre e edificante, abrangendo todas as partes não legalistas da Escritura (Haggadah). Essa última classe de interpretação era mais homilética e ilustrativa do que exegética.
Uma das grandes fraquezas da interpretação dos Escribas é devida ao fato de ela exaltar a Lei Oral, que é, em última análise, idêntica às inferências dos rabinos, como apoio necessário da Lei escrita, e finalmente usá-la como meio para desprezar a lei escrita. Isso deu margem ao aparecimento de várias formas arbitrárias de interpretação. Note-se a afirmação de Cristo, em Marcos 7:13 "…invalidando a Palavra de Deus pela vossa própria tradição que vós mesmos transmitistes; e fazeis muitas outras cousas semelhantes."
Hillel foi um dos maiores intérpretes entre os judeus. Deixou-nos sete regras de interpretação, pelas quais ensinou, ao menos aparentemente, que a tradição oral devia ser deduzida dos dados fornecidos pela Lei escrita. Estas regras, em forma sucinta, são as seguintes:
· Leve e pesado (isto é, a minore ad majus e vice-versa)
· "equivalência"
· dedução do especial para o geral
· inferência de várias passagens
· inferência do geral para o especial
· analogia de outra passagem
· inferência do contexto.

b ) Judeus Alexandrinos – Sua interpretação era mais ou menos determinada pela filosofia de Alexandria. Adotavam o princípio fundamental de Platão de que ninguém deve acreditar em algo que seja indigno de Deus ( O que é indigno de Deus, o que minha mente pecadora diz que é?). Quando encontravam alguma coisa no Velho Testamento que não concordava com sua filosofia e que ofendia a sua lógica, recorriam às interpretações alegóricas. Filo foi o grande Mestre deste método de interpretação entre os judeus. Ele não rejeitou totalmente o sentido literal da Escritura, mas o considereva uma concessão à nossa fraqueza. Para ele, a letra era apenas um símbolo de coisas muito mais profundas. A significação oculta da Escritura era o que havia de maior importância. Ele também, deixou-nos alguns princípios de interpretação. "Negativamente, ele diz que o sentido literal deve ser excluído quando o que afirma é indigno de Deus, quando envolve contradição, quando a própria Escritura alegoriza. Positivamente, o texto deve ser alegorizado quando as expressões são ambiguas, quando existem palavras supérfluas, quando há repetição de fatos já conhecidos, quando a expressão é variada, quando há o emprego de sinônimos, quando é possível um jogo de palavras em qualquer das suas modalidades, quando as palavras admitem uma ligeira alteração, quando a expressão é rara, quando existe algo de anormal quanto ao número e ao tempo gramatical" (Farrar, Histury of Interpretation, p. 22). Essas regras naturalmente abriram caminho a toda espécie de erros de interpretação, e são comuns ainda hoje em círculos de estudo.

c) Judeus Caraítas – Esta seita, denominada por Farrar "Os protestantes do Judaísmo", foi fundada por Anan bem David, cerca de 800 A.D. Do ponto de vista de suas características fundamentais, podem ser consideradas como descendentes espirituais dos saduceus. Representam um protesto contra o rabinismo parcialmente influenciado pelo maometismo. A forma hebraica da palavra "karaites"é Beni Mikra – "Filhos da Leitura". Eram assim chamados porque seu princípio fundamental era considerar a Escritura como única autoridade em matéria de fé. Isso significava, por um lado, desprezo à tradição oral e à interpretação rabínica, e, por outro, um novo e cuidadoso estudo do texto da escritura. A fim de combatê-los, os rabinos encetaram estudo semelhante, e o resultado deste conflito foi o texto massorético. Sua exegese, como um todo, era muito mais correta do que a dos judeus palestínicos e alexandrinos.

d) Judeus Cabalistas – O movimento cabalista do século doze era de natureza bem diferente. Representa, de fato, uma reductio ad absurdum do método de interpretação empregado pelos judeus da Palestina, se bem que empregasse também o método alegórico dos judeus alexandrinos. Admitiam que todo o Massorah, mesmo os versos, as palavras, letras, vogais e acentos foram entregues a Moisés no Monte sinai; e que "o número de letras, cada letra per si, a transposição e a substituição tinham poder especial e sobrenatural". Em sua tentativa de desvendar os mistérios divinos, lançaram mão dos métodos seguintes:
1) Gematria, de acordo com o qual podiam substituir certa palavra bíblica por outra que tivesse o mesmo valor numérico;
2) Notarikon, que consistia em formar palavras pela combinação de letras iniciais e finais, ou por considerar cada letra de uma palavra e letra inicial de outras palavras; e
3) Temoorah, que indicava o método pelo qual se conseguia nova significação das palavras por meio do intercâmbio de letras.

e) Judeus Espanhóis – Do século doze ao século quinze desenvolveu-se um método mais sádio de interpretação entre os judeus da Espanha. Quando a exegese da Igreja cristã estava periclitante, e o conhecimento do hebraico estava quase perdido, alguns judeus instruídos da Península Pirenaica restauraram a luz ao castiçal. Algumas de suas interpretações ainda hoje são citadas. Os principais exegetas entre eles foram Abraão Aben-Ezra, Salomão, Izaak Jarchi, David Kimchi, Izaak Aberbanel e Elias Levita. Nicolas Lyra e Reuchlin receberam grande ajuda desses eruditos judeus.

A Hermenêutica na Igreja Cristã

No período patrístico, o desenvolvimento dos princípios hermenêuticos de prende a três diferentes centros da vida da Igreja.

1) Escola de Alexandria – No começo do terceiro século A.D., a interpretação bíblica foi influenciada especialmente pela escola catequética de Alexandria. Essa cidade era importante centro de estudos e ali a religião judaica e a filosofia grega se encontraram e mutuamente se influenciaram. A filosofia platônica ainda era corrente ali nas formas do neoplatonismo e do gnosticismo. Não é de admirar que a famosa escola catequética desta cidade se tenha deixado influenciar por esta filosofia popular e se acomodado a ele em sua interpretação da Bíblia. Encontrou o método natural de harmonizar religião e filosofia na interpretação alegórica, pois:
a) Filósofos pagãos (estóicos) há muito haviam empregado esse método na interpretação de Homero, e, portanto, indicado o caminho; e
b) Filo, que era também alexandrino, emprestou a esse método o peso de sua autoridade, reduzindo-o a um sistema, e aplicando-o até mesmo para as mais simples narrativas.
Os principais representantes dessa escola foram Clemente de alexandria e seu discípulo Orígenes. Ambos consideravam a Bíblia como inspirada palavra de Deus, em sentido estrito, e participavam da opinião do seu tempo de que regras especiais deviam ser aplicadas na interpretação das comunidades divinas. E, não obstante reconhecerem o sentido literal da Bíblia, eram de opinião que somente a interpretação alegórica contribuía para um conhecimento real.
Clemente de alexandria foi o primeiro a aplicar o método alegórico na interpretação do Velho Testamento. Propôs o princípio de que toda a Escritura devia ser entendida alegoricamente. Isso era um passo além dos outros intérpretes cristãos e constituía a principal característica da posição de Clemente. Na sua opinião, o sentido literal da Escritura poderia fornecer apenas um tipo de fé elementar, enquanto que o sentido alegórico conduziria ao verdadeiro conhecimento.
Orígenes, seu discípulo, foi além dele, tanto em saber como em influência. Foi, sem dúvida o maior teólogo do seu tempo. Mas seu principal método reside no trabalho de criticismo textual que realizou e não tanto na interpretação bíblica. "Como intérprete, ele ilustrou mais sistemática e extensivamente o tipo alexandrino de exegese" (Gilbert). Numa das suas obras, apresenta pormenorizada teoria de interpretação. O princípio fundamnetal desta obra é o de que o sentido que o Espírito Santo dá é sempre simples, claro e digno de Deus. Tudo que parece obscuro, imoral e incoveniente na Bíblia serve simplesmente como incentivo para ultrapassar o sentido literal. Orígenes considerava a Bíblia como meio de salvação do homem. E porque, de acordo com Platão, o homem consiste de três partes – corpo, alma e espírito – ele aceitou que a Bíblia tem uma tríplice significação, a saber, a literal, a moral e a mística ou alegórica. Em sua prática exegética, ele quase menosprezou o sentido literal da Escritura, referiu-se raramente ao sentido moral, e constantemente empregou o sentido alegórico – visto que só ele produzia conhecimento verdadeiro.

2) Escola de Antioquia – A escola de Antioquia foi, provavelmente, fundada por Doroteu e Lúcio, no fim do terceiro século, se bem que Farrar considere Diodoro, o primeiro presbítero de antioquia e depois de 378 A.D., bispo de Tarso, como verdadeiro fundador da escola. Diodoro escreveu um tratado sobre princípios de interpretação. O seu maior monumento, porém, é constituído de dois ilustres discípulos seus – Teodoro de Mopsuéstia e João Crisóstomo.
Esses dois homens diferiam grandemente em vários aspectos. Teodoro sustentou um ponto de vista liberal a respeito da Bíblia, enquanto que Crisóstomo a considerou em todas as suas partes como sendo a infalível Palavra de Deus. A exegese do primeiro era intelectual e dogmática; a do último, mais espiritual e prática. Um se tornou famoso como crítico e intérprete; o outro, se bem que fosse um exegeta de não menos habilidade, eclipsou todos os seus contemporâneos como orador. Daí porque Teodoro é considerado o Exegeta, enquanto João foi chamado Crisóstomo (boca de ouro), por causa do esplendor de sua eloqüência. Eles avançaram no sentido de uma exegese verdadeiramente científica, reconhecendo, como o fizeram, a necessidade de determinar o sentido original da Bíblia, a fim de fazer dele uso proveitoso. Eles não somente deram grande valor ao sentido literal da Bíblia, mas conscientemente rejeitaram o método alegórico de interpretação.
No trabalho de exegese, Teodoro superou Crisóstomo. Considerava o fator humano na produção da Bíblia, mas é pena dizer, negou a inspiração divina de alguns livros da Escritura. Ao invés do método alegórico, ele defendeu a interpretação histórico-gramatical, que o colocou muito além de seu tempo. E, se bem que reconhecessem o elemento tipológico na Bíblia e encontrasse passagens messiânicas em alguns Salmos, explicou a maioria deles zeltgeschichtlich (do ponto de vista histórico contemporâneo). Os três capadócios pertenceram a essa escola.

3) Escola Ocidental – Apareceu no Ocidente um tipo intermediário de exegese. Acolheu alguns elementos da escola alegórica de Alexandria, mas também reconheceu os princípios da escola Síria. Seu aspecto mais característico, entretanto, encontra-se no fato de haver acrescentado outro elemento que até então ainda não havia sido considerado, a saber, a autoridade da tradição e da Igreja na interpretação da Bíblia. Atribuiu valor normativo ao ensino da Igreja no campo da exegese. Esse tipo de exegese foi representado por Hilário e Ambrósio, mas, de modo especial, por Jerônimo e Agostinho.
A fama de Jerônimo se baseia mais na traduçã da Vulgata do que na sua interpretação da Bíblia. Era conhecedor tanto do hebraico como do grego, mas seu trabalho no campo exegético consiste principalmente de grande número de notas lingüisticas, históricas e arqueológicas. Agostinho difere Jerônimo no fato de o seu conhecimento das línguas originais ser muito deficiente. Isso equivale a dizer que fundamentalmente ele não foi um exegeta. Ele foi grande na sistematização das verdades bíblicas, porém não o foi na interepretação da Escritura. Seus princípios hermenêuticos, apresentados no trabalho "De Doctrina Christiana", eram melhores do que sua exegeta. Advogava que um intérprete devia ser preparado para sua tarefa, tanto filológica como crítica e historicamente, e devia, acima de tudo, ter amor ao autor. Deu ênfase à necessidade de se considerar o sentido literal, e de se basear nele o alegórico; mas, ao mesmo tempo, usou muito livremente a interpretação alegórica. Além do mais, nos casos em que o sentido da escritura era dúbio, ele deu voz decisiva à regula fidei que significava uma afirmação compendiada da fé da Igreja. Infelizmente, Agostinho também adotou um quádruplo sentido da Escritura: histórico, etiológico, analógico e alegórico. Foi especialmente neste sentido que ele influenciou a interpretação da Idade Média.

Período da Idade Média
Durante a Idade Média, muitos dos clérigos viviam em profunda ignorância da Bíblia. E o que dela conheciam era somente a Vulgata e através dos escritos dos Pais. A Bíblia era considerada um livro cheio de mistérios, e que só podia ser entendido misticamnete. Neste período, o quádruplo sentido da Escritura era geralmente aceito e tornou-se princípio estabelecido que a interpretação da Bíblia tinha de adaptar-se à tradição e a doutrina da igreja. Considerava-se a mais alta sabedoria reproduzir os ensinos dos Pais, e descobrir os ensinos da Igreja na escritura Sagrada. A regra de São Benedito foi prudentemente adotada nos mosteiros, e foi decretado que as Escrituras deviam ser lidas, e com elas, como explicação final, a exposição dos Pais. Hugo de São Vitor chegou a dizer: "Aprende primeiro o que deves crê e então vai à Bíblia para encontrar a confirmação". E nos casos em que as interpretações dos Pais eram diferentes, como sempre acontecia, o intérprete estava na obrigação de escolher quod ubique, quod semper, quod ab amnibus creditum est. Nenhum novo princípio hemenêutico surgiu nesse tempo, e a exegese estava de mãos e pés amarrados pela tradição e pela autoridade da Igreja.
Esse estado de coisas se reflete claramente nas obras que foram escritas nesse período . Abaixo alguns exemplos:
1) A "Glossa Ordinária" de Walafrid Strabu, e a "Glossa Interlinearis", de Anselmo de Laon. Eram compilações de fragmentos literais, morais e místicos permeados de observações gramaticais de caráter muito elementar. As interpretações dadas eram quase sempre de natureza contraditória, e portanto, mutuamente exclusivas. Muitas vezes deixava o leitor com um aliter ou poteste etiam intelligi, para escolher entre as interpretações. As Glosses de Walafrid achavam-se investidas de alta autoridade.

2) As Catenae, das quais as mais famosas foram as de Procópio de Gaza, no oriente, e as de Tomás de Aquino, no Ocidente. Nestes encontramos uma coleção de interpretações patrísticas encadeadas. Seu valor natural dependia das fontes de onde se originaram.

3) O Livro das Setenças (Liber Sententiarum), de Pedro Lombardo. Esse trabalho é basicamente uma compilação de exposições selecionadas dos escritos de Hilário, Ambrósio e Agostinho. Difere dos trabalhos acima citados pelo fato de ser mais do que simples compilação. Se bem que Pedro Lombardo fosse cuidadoso no sentido de não insurgir-se contra a autoridade estabelecida, contudo, dentro de certos limites, suscitou questões, fez distinções, e chegou a acrescentar comentários propriamente seus. Nos séculos que seguiram imediatamente, seu trabalho foi estudado mais diligentemente do que a própria Bíblia.
Apesar de o quádruplo sentido da Escritura ser geralmente aceito neste tempo (sentido literal, tropológico, alegórico e analógico), pelo menos alguns começaram a ver a incongruência de tal ponto de vista. Mesmo Tomás de Aquino parece haver sentido isso vagamente. É verdade que ele alegorizou constantemente, mas também, ao menos em teoria, considerava o sentido literal o fundamento necessário de toda exposição da Escritura. Mas foi especialmente Nicolau de Lira quem quebrou as cadeias do seu tempo. Não abandonou de modo ostensivo a opinião corrente, mesmo no que se refere à tese do quádruplo significado, mas na realidade, admitiu apenas dois sentidos – o literal e o místico – e ainda assim fundamentou este naquele. Insistiu na necessidade de referência ao original, queixando-se do sentido místico permitido para sufocar o literal", e exigiu que o últimos só fosse usado para demonstrar a doutrina. Seu trabalho influenciou profundamnete a Lutero, e conseqüentemente afetou também a reforma.

Período da Reforma
A renascença foi de grande importância para o desenvolvimento de sadios princípios hermenêuticos. Nos séculos quatorze e quinze havia muita ignorância quanto ao conteúdo da Bíblia. Havia doutores em divindade que nunca haviam lido a Bíblia toda. E a única forma em que a Bíblia era conhecida era a tradução de Jerônimo. A renascença chamou a atenção para a necessidade de se recorrer ao original. Reuchlin e Erasmo – chamados os dois olhos da Europa – por sua vez, mostraram aos intérpretes da Bíblia que tinham o dever de estudá-la nas línguas em que foi escrita. Além disso, esses dois homens facilitaram grandemente tal estudo: o primeiro publicando uma gramática e um dicionário da língua hebraica; o último, a primeira edição crítica do Novo Testamento grego. O quádruplo sentido da Bíblia foi gradualmente abandonado, e se estabeleceu o princípio de que a Bíblia tem apenas um sentido.
Os reformadores acreditavam que a Bíblia era a inspirada Palavra de Deus, mas, ainda que sua idéia de inspiração fosse estrita, eles a concebiam como sendo mais orgânica do que mecânica. Em certos aspectos, revelaram notável liberdade no trato das Escrituras. Ao mesmo tempo, consideravam a Bíblia a mais alta autoridade, e a corte final de apelação em todas as questões teológicas. Contra a infalibilidade da Igreja eles puseram a infalibilidade da Palavra. Sua posição se patenteia na afirmação de que não é a Igreja que determina o que as Escrituras ensinam, mas as Escrituras que determinam o que a Igreja deve ensinar. O caráter essencial de sua exegese resultou de dois princípios fundamnetais : (1) Seriptura Scripturae interpres ( Escritura é a Intérprete da Escritura) e (2) Omnis intellectus ac expositio Scripturae sit analogia fidei (toda compreensão e exposição da escritura seja de acordo com a analogia da fé). E para eles a analogia fidei é igual a analogia Scripturae, isto é, o ensino uniforme das Escrituras.
1) Lutero – Traduzindo a Bíblia para o alemão vernáculo, Lutero prestou um grande serviço à nação alemã. Realizou também algum trabalho de exposição se bem que bastante limitado. Suas regras de hermenêutica eram melhores do que sua exegese. Se bem que não reconhecesse senão o sentido literal, e houvesse zombado da interpretação alegórica como Affenspiel ( momice), ele não evitou inteiramente o método que condenou. Defendeu o direito de juízo privado; salientou a necessidade de ser considerar o contexto e as circunstâncias históricas; exigiu do intérprete intuição espiritual e fé; e pretendeu encontrar Cristo em toda parte na Escritura.

2) Melanchton – Foi a mão direita de Lutero e seu superior no saber. Seu grande talento e extenso conhecimento, inclusive do grego e do hebraico, fizeram dele um intérprete admirável. Na sua obra exegética, seguiu os sadios princípios de que as Escrituras devem ser entendidas gramaticalmente antes de o serem teologicamente; e as Escrituras têm apenas um simples e determindao sentido.

3) Calvino – Foi considerado por todos o maior exegeta da Reforma. Suas exposições abrangem quase todo os livros da Bíblia, e ainda se reconhece o seu valor. Seus princípios fundamentais foram os adotados por Lutero e Melanchton, porém ele os superou pelo fato de haver praticado sua teoria. Achava que o método alegórico era uma artimanha satânica para obscurecer o sentido da Escritura. Acreditava firmemente na significação tipológica de muitas coisas do V. T., mas não concordava com a opinião de Lutero, segundo a qual Cristo podia ser encontrado em qualquer lugar da Escritura. Além disso, reduziu o número de Salmos que poderiam ser considerados messiânicos. Insistiu em que os profetas deviam ser interpretados à luz das circunstâncias históricas. Segundo lhe parecia, a virtude por excelência de um expositor era a lúcida brevidade. Além do mais, considerava como "primeiro dever de um intérprete, permitir que o autor diga o que realmente diz, ao invés de lhe atribuir o que pensemos que devia dizer."

4) Os Católicos Romanos – Esses não progrediram no campo exegético, durante a reforma. Não admitiram o direito de juízo privado, e defenderam, contra os protestantes, a posição segundo a qual a Bíblia devia ser interpretada em harmonia com tradição. O Concílio de Trento enfatizou que: (a) devia ser mantida a autoridade da tradição eclesiástica; (b) que a mais alta autoridade devia ser atribuída à Vulgata; e (c) que é necessário que a interpretação que se dá esteja de acordo com a autoridade da Igreja e o assentimento unânime dos pais. Onde prevaleceram esses princípios, não houve progresso no campo da exegese.

Período Confessional
Após a reforma, tornou-se evidente que os protestantes não se haviam purgado do velho fermento. Teoricamente, conservavam o princípio: Seriptura Seripturae interpres. Mas enquanto se recusavam a submeter sua exegese ao domínio da tradição e da doutrina da Igreja tal como havia sido formulada pelos concílios e papas, corriam risco de se deixar escravizar pelos Padrões Confessionais da Igreja. Foi o período preeminente das Confissões. "Ao tempo, quase toda cidade importante tinha o seu credo favorito" (Farrar). Além disso, esse foi o período das controvérsias. O protestantismo estava lamentavelmente dividido em várias facções. O espírito militante da época encontrou expressão em centenas de trabalhos polêmicos. Cada um procurava defender sua própria opinião, apelando para a Escritura. A exegese se tornou serva da dogmática, e degenerou em mera busca de textos-provas. Estudava-se a Escritura para nela encontrar as verdades incorporadas nas Confissões. Isso é verdade perticularmente quanto aos teólogos luteranos, se bem que o fosse também quanto aos teólogos reformados. Foi nesse período que alguns se inclinaram na direção de uma idéia mecânica da inspiração da Bíblia. Conferir a Formula Consensus Helvetica. Os Boxtorís sustentaram que até as vogais dos textos hebraicos eram inspiradas.
As tendências prevalecentes desse período não são tão importantes para a história dos princípios hermenêuticos como o são as reações contra ele. Há três dessas reações que merecem ser mencionadas.
1) Socinianos – Eles não criaram nenhum novo princípio hermenêutico, mas em todas as suas exposições se basearam na afirmação de que a Bíblia deve ser interpretada de modo racional ou, talvez melhor, em harmonia com a razão. Como Palavra de Deus e Bíblia não podia conter qualquer coisa contrária à razão, isto é, de acordo com o seu pensamento, qualquer coisa que não pudesse ser racionalmenteo entendida. Assim, as doutrinas da Trindade, das duas naturezas de Cristo, da providência foram abandonadas. Construíram um sistema teológico que representava uma mistura de Racionalismo e supernaturalismo. E não obstante se gloriarem de sua libertação do jugo confessional, sua exegese era, no final das contas, dominada por seu sistema dogmático.

2) Coccejus – Esse teólogo holandês não se satisfez com o método corrente de interpretações. Sentiu que os que consideravam a Bíblia como coleção de textos-provas não faziam justiça à Escritura como um organismo, do qual as diferentes partes eram tipologicamente relacionadas entre si. Insistiu em que o intérprete devia estudar cada passagem à luz do seu contexto, do pensamento dominante e do propósito do autor. Seu princípio fundamnetal era o de que as palavras da Escritura significavam o que podiam significar em todo o discurso; ou, como diz em uma das suas obras; "O sentido das palavras da Bíblia é tão abrangente que contém mais de um pensamento, sim, algumas vezes, uma multiplicidade de pensamentos, que um intérprete experiente pode deduzir." Assim diz Farrar : "… ele introduziu uma falsa pluralidade de significações, fazendo confusão entre o sentido real e todas as possíveis aplicações." E isto foi agravado por sua excessiva tipologia, que o levou não só a ver Cristo em toda parte da Bíblia, mas também a descobrir as vicissitudes da Igreja do Novo Testamento, no curso de sua história, tipificada no Velho Testamento, e até nas palavras e atos do próprio Cristo. Mas, não obstante as falhas de sua exegese, ele prestou um bom serviço, chamando a atenção para o caráter orgânico da revelação de Deus.
J.A. Turrentin se opôs ao procedimento arbitrário de Coccejus e de seus seguidores. Ao contrário do sentido imaginário descoberto pela escola de Coccejus, Turretin insistiu em que a Bíblia devia ser interpretada sem preconceitos dogmáticos, e com o auxílio da lógica e da análise. Ele exerceu profunda e benéfica influência.

3)Pietistas – Cansados das lutas entre os protestantes, os pietistas se inclinaram a promover uma vida verdadeiramnee piedosa. No todo, eles representavam uma reação sadia contra as interpretações dogmáticas de seu tempo. Insistiam no estudo da Bíblia nas línguas originais, e sob a influência e iluminação do Espírito Santo. Mas o fato de, em sua exposição, terem por alvo principal a edificação, levou-os gradualmente ao desprezo da ciência. De acordo com o seu ponto de vista, o estudo gramatical, histórico e analítico da Palavra de Deus produzia apenas o conhecimento externo e superficial do pensamento divino, enquanto que o estudo porismático (aquele que tira inferências para repreensão) e o prático (oração e lamentação) penetram no amâgo da verdade. Rambach e Franke foram dois dos mais eminentes representantes desta escola. Foram os primeiros a falar da necessidade da interpretação psicológica, no sentido de que os sentimentos do intérprete deviam estar em harmonia com os sentimentos do autor que desejava compreender. As tendências místicas desses intérpretes levaram-nos a descobrir ênfase especial onde ela não existia. Bengel foi o melhor intérprete que esta escola produziu.

Período Histórico-Crítico
Se o período anterior foi testemunha de alguma oposição à interpretação dogmática da Bíblia, no período que consideramos o espírito de reação ganhou o lugar predominante no campo da Hermenêutica e da Exegese. Freqüentemente, encontrou expressão em oposições extremas, e então se defrontava com determinada resistência. Divergentes pontos de vista foram expressos a respeito da inspiração da Bíblia, mas eram unânimes em negar a inspiração verbal e a infalibilidade da Escritura. O elemento humano na Bíblia foi reconhecido e enfatizado como não havia sido antes; e os que acreditavam também no elemento divino, refletiam sobre a mútua relação entre o humano e o divino.
Fizeram-se tentativas no sentido de sistematizar a doutrina da inspiração. Alguns adotaram o ponto de vista de Le Clerk, segundo o qual a inspiração variava em graus nas diferentes partes da Bíblia, admitindo a existência de erros e imperfeições naquelas partes em que esta inspiração era de grau mais baixo. Outros aceitaram a teoria de uma inspiração parcial, limitando-a às porções pertinentes à fé e à moral, admitindo, portanto, a possibilidade de erros históricos e geográficos. Schleiermacher e seus seguidores negaram o caráter sobrenatural da inspiração, e a identificaram com a iluminação espiritual dos cristãos; enquanto que Werscheider e Parker reduziram-na ao poder que todo homem possui simplesmente em virtude da luz natural. Em nossos dias, é comum falar-se da inspiração como dinâmica, e relacioná-la mais com os autores do que com seus escritos. De acordo com Ladd, "a inspiração é o resultado da energia supernatural e espiritual, que se manifesta num alto grau e nova ordem da energia espiritual do homem". O produto disso é chamado "revelação".
Exige-se como conditio sine Qua non que o exegeta seja voraussetzunglos (sem pressuposições), e inteiramente livre do domínio dos padrões dogmáticos e confessionais da Igreja. Além disso, estabeleceu-se o princípio segundo o qual a Bíblia devia ser interpretada como qualquer outro livro. O elemento divino da Bíblia foi, em geral, menosprezado, e o intérprete se limitava à discussão de questões históricas e críticas. O fruto produzido por este período foi a consciência da necessidade de interpretação gramático-histórica da Bíblia. Há também evidências de uma crescente convivão de que este duplo princípio de interpretação devia ser complementado por outro princípio, a fim de fazer-se justiça à Bíblia como revelação divina.
O começo desse período foi marcado pelo aparecimento de duas escolas opostas – a Gramatical e a Histórica.
1) Gramatical – Foi fundada por Ernesti, que escreveu importante trabalho sobre a interpretação do N.T., no qual estabelece quatro princípios : (a) o sentido múltiplo da Escritura deve ser rejeitado, e somente se deve conservar o sentido literal; (b) as interpretações alegóricas devem ser abandonadas, exceto nos casos em que o autor indique que o deseja, a fim de se combinar com o sentido literal; (c) visto que a Bíblia tem o sentido gramatical em comum com outros livros, isto deve ser considerado em ambos os casos; (d) o sentido literal não pode ser determinado por um suposto sentido dogmático.
A escola Gramatical era essencialmente supernaturalista, prendendo-se "às palavras do texto como legítima fonte de interpretação autêntica da verdade religiosa" (Elliott). Mas esse método era unilateral porque servia exclusivamnete a uma pura e simples interpretação do texto, que nem sempre é suficiente na interpretação da Bíblia.

2) Histórica – Se originou com Semler. Filho de pais pietistas, tornou-se apesar disso, em certa extensão, o pai do racionalismo. No seu trabalho dobre o Cânon, chamou a atenção para o aspecto humano da origem histórica e da composição da Bíblia, fato até então negligenciado. Num segundo trabalho, sobre a interpretação do N.T., estabeleceu certos princípios de interpretação. Semler salientou o fato de que os vários livros da Bíblia e o Cânon se originaram de modo histórico, e eram portanto, historicamente condicionados. Partindo do fato de que os livros foram escritos por diferentes classes do povo, concluiu que o seu conteúdo, em grande parte, é local e efêmero, e que não pretendiam ter valor normativo para todos os homens em todos os tempos. Além disso, viu neles uma mistura de erros, pois Jesus e seus apóstolos se acomodaram em alguns pontos ao povo a quem se dirigiam. Daí ele dizer que era necessário que o intérprete tivesse estas coisas em mente para a interpretação do N.T. Quanto à questão de saber qual o elemento de verdade que na Bíblia serve de traço de união, ele diz que é "aquele que serve para aperfeiçoar o caráter moral do homem". Seu ensino favorece a idéia de que as Escrituras são produções humanas falíveis, e virtualmente faz a razão humano o árbitro da fé. Semler não foi o primeiro a adotar estas idéias, mas expressou os pensamentos prevalecentes nos seus dias.

3) Tendências Resultantes – Se bem que este período tenha começado com duas escolas opostas, logo revelou três tendências distintas no campo da hermenêutica e da exegese. Grande número de intérpretes desenvolveu os princípios racionalistas de Semler a ponto de espantar o próprio iniciador do movimento. Outros recuaram das posições extremadas do Racionalismo ou assumiram um meio-termo ou voltaram aos princípios da Reforma. Ainda outros salientaram o fato de que o método gramático-histórico de interpretação devia ser suplementado por algum princípio que capacitaria o expositor a penetrar no espírito da Escritura.
(1) Ala Racionalista – a semente espalhada por Semler produziu a ala racionalista no campo da exposição histórica. Podemos demonstrar o que afirmamos, tomando os exemplos seguintes:
a)Paulus, professor de Heidelberg, assumiu uma posição puramente naturalista. Considerava a "fidelidade prática à razão" como fonte da religião cristã. Seu trabalho mais famoso é o que se relaciona com a interpretação dos milagres. Distinguiu duas questões, se eles ocorreram e como tudo que aconteceu pode ter acontecido.
b) A teoria de Paulus foi ridicularizada por Strauss, que propôs a teoria da interpretação mística do N.T. Sob a influência da Hegel, ensinou que a idéia messiânica com todos os seus acréscimos do miraculoso, desenvolveu-se gradualmente na história da humanidade. No tempo de Jesus, as expectações messiânicas estavam no auge. O trabalho de Jesus e seu ensino deixaram impressão tão profunda sobre os discípulos que, depois de sua morte, atribuíram-lhe palavras e obras maravilhosas, que se esperavam do Messias, incluindo a ressurreição.
c) Este ponto de vista, foi ridicularizado por F.C. Baur, o fundador da escola de Tuebingen, que ensinou que o N.T. se originou de acordo com o princípio hegeliano de tese, antítese e síntese. Sustentou Qua a hostilidade entre as facções Paulina e Petrina produziu uma literatura rival, e finalmente, também a composição de livros que visavem a reconciliação dos partidos oponentes. Como resultado, evidenciaram-se três tendências na literatura do N.T.
d) A escola Graf-Kuenen-Wellhausen tem por objetivo explicar o V.T. de modo "histórico e objetivo", de acordo com a filosofia evolucionista. Seu trabalho se caracteriza pela minudência que causa admiração e pela sua grande engenhosidade; mas mesmo agora há sinais que indicam seu caráter passageiro.

(2)A dupla reação do Racionalismo – O Racionalismo não se desenvolveu sem oposição. No curso dos tempos apareceu uma dupla reação.
a)Conciliação – Schleiermacher, foi sem dúvida seu principal impulsionador. Sua obra póstuma sobre Hermenêutica não responde a essa expectação geral. Ele ignorou a doutrina da inspiração, negou a validade permanente do V. T. e tratou a Bíblia como outro livro qualquer, mas não duvidava da genuinidade substancial da escritura. Distinguiu entre o essencial e o não essencial, e achou que a ciência crítica era capas de estabelecer a linha divisória entre ambos. Com toda a sua insistência sobre a piedade do coração, ele seguiu em seu trabalho exegético, principalmente os caminhos do Racionalismo.

Alguns dos seus seguidores como De Wette, Bleek, Gesenius e Ewald tinham decididas inclinações para o Racionalismo. Outros porém eram mais evangélicos e adotavam uma posição intermediária. Entre estes encontram-se Tholuck, Riehm, Weiss, luccke, neander e outros. Eles rejeitaram interiamente a teoria da inspiração verbal, mas ao mesmo tempo revelaram profunda reverência para com a autoridade das Escrituras Sagradas. Diz Lichtenberg "Sem admitir a infalibilidae do Cânon ou a inspiração planária do texto, e reservando-se o direito de submeter ambas ao teste do criticismo histórico, a escola de Conciliação não faz mais do que proclamar a autoridade da Bíblia em Matéria de religião.".
b)Hengstenberg – Naturalmente, o caráter intermediário da escola precedente foi também sua fraqueza. Ela não serviu para impedir o curso do Racionalismo. Uma reação muito mais efetiva apareceu na Escola de Hengstenberg, que retornou aos princípios da reforma. Ele acreditou na inspiração plenária da Bíblia, e conseqüentemente, defendeu sua absoluta infalibilidade. Firmou sua posição nos padrões confessionais da Igreja Luterana. É verdade que ele foi bastante violento em suas polêmicas, dogmático em suas asserções e que ocasionalmente revela uma tendência para alegorizar. Mas, no todo, seu trabalho exegético evidencia profunda erudição filológica e histórica, e ao mesmo tempo revela sua intuição da revelação divina. Entre seus discípulos e seguidores encontramos K.F. Keil, Havernick e Kurtz.

(3) Tentativas de ir além do sentido gramático-histórico – O resultado final deste período é o método gramático-histórico de interpretação. Encontramos este método representado em manuais de hermenêutica como os de C.A.G. Keil, Davidson, P. Fairbairn, A.Immer e N.S. Terry. Geralmente, porém, surge uma tendência segundo a qual se revela que a interpretação gramático-histórica não satisfaz plenamente, e procurou-se complementá-la.
a) Kant afirmou que somente a interpretação moral da Bíblia tem significado religioso. De acordo com o seu pensamento, o progresso ético do homem deve ser o princípio dominante na exposição da Palavra de Deus. Desde que não atenda a este propósito, deve ser rejeitado.
b) Olshausen advogou a necessidade de se alcançar "o sentido mais profundo da Escritura". Para ele, este sentido mais profundo não era nada à parte do sentido literal, porém algo intimamente relacionado com ele, e nele baseado. A maneira de descobrir o sentido mais profundo é reconhecer "a revelação divina na Escritura e seu ponto central, Cristo, em sua unidade com Deus e com a humanidade" (Immer). Este sentido mais profundo é o ponto central da revelação de Deus. Apesar de advogar este ponto de vista, Olshausen adverte contra a antiga interpretação alegórica. R.Stier seguiu seus passos em certa extensão.
c)Germar adotou o que ele chamou de interpretação pan-harmônica da Escritura. "Exigiu completa harmonia entre o sentido encontrado na Escritura, desde que seja considerado como revelação de Deus, e as declarações de Cristo e tudo mais que seja certo e verdadeiro" (Reuss). Este princípio é, de fato, verdadeiro, mas deixa margem à especulação subjetiva quando se procura saber até que ponto a Bíblia é revelação de Deus, e também o que são as coisas certas e verdadeiras.
d) T.Beck sugeriu a interpretaçào pneumática ou espiritual. Ensinou que o intérprete devia Ter o espírito de fé. Este espírito, diz ele, daria ao intérprete a convicção de que as várias partes da Escritura formam um todo orgânico. E as partes separadas da Bíblia deviam ser interpretadas à luz desta fisiognomonia, como se revela nas partes da Escritura cujo significado é claro. Isso é praticamente equivalente a dizer que a Bíblia deve ser interpretada de acordo com a analogia fidei.
A busca de algum princípio de interpretação para completar o sentido gramático-histórico caracteriza também as obras de Lutz, Hofmann, Klausen, Landerer e outros. 


 

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