Mochila Pesada (By Renata V. Lopes – 17/02/2006)


Quando eu era pequena, em idade escolar, tinha um grande sonho, ter uma mochila para ir ao colégio. Ao que me lembro isso se realizou na quinta série ginasial, quando os cadernos aumentaram de tamanho e o volume de conhecimento teoricamente também cresceria proporcionalmente.

Era um sonho realizado depois de tanto tempo sonhando com a mochila, um motivo de orgulho para quem começava a encarar os desafios de uma nova fase escolar. Orgulho esse traduzido por carinho. Carinho dedicado a todos os tesouros que carregava na minha adorável mochila azul. Para os que haviam comprado meus pais, com certeza custou uma pequena fortuna, já que a vida não estava sendo muito generosa financeiramente para eles.

Com o passar dos anos percebo que meu sonho se tornou duplamente realizado, já que desde que nascemos podemos verificar uma mochila imaginária que nos acompanha por toda a vida. Era tolice ter sonhado tanto com aquela mochila, pois essa agora tem muito mais valor do que podemos perceber.

Nela guardamos as nossas experiências, sejam elas de alegria ou tristeza, frustração ou realização, rancor ou amor. E tudo isso acumulamos em nossa mochila e carregamos por ano e muitas vezes sem perceber, guardamos coisas que nunca serão aproveitadas.

Acumulamos muito lixo também no interior dela, na mochila da escola, sempre pude contar com a minha mãe para organizá-la e jogar fora o que não servia. Mas a mochila imaginária ficou por anos sem ser organizada.

Um dia, porém encontrei o Mestre dos Mestres do qual me tornei aluna. Percebendo o peso da minha mochila, se prontificou em ajudar-me a organizá-la durante nossas ministrações.

Aceitei com certa relutância, afinal não tínhamos tanta intimidade, como poderia mostrar tudo o que carregava durante todos esses anos, afinal eram parte da minha história, e algumas dessas coisas não deveriam sair de dentro da mochila onde eu as havia colocado..

Para não causar nenhum constrangimento ao meu Mestre que tão gentilmente havia proposto ajudar-me, escolhi os pequenos bolsos externos da mochila para organizarmos. Foi bom ver o sorriso em seu rosto e forma como cuidadosamente retirou, limpou e organizou tudo novamente nos bolsos. Nessa primeira etapa pude perceber que pouco lixo ali se encontrava alguns papéis de bala e rascunhos antigos, mas nada significativo realmente. Porém a maioria das coisas que lá encontrei eram as que eu mais utilizava, e por isso mesmo estavam na parte externa da mochila para que ficasse fácil acessá-las.

O peso em si não mudou muito, pois muito retornou aos bolsos, mas a cada uso dessas coisas algo diferente parecia fluir deles, os resultados que elas provocavam estavam de alguma forma mudando a minha forma de ser. Com o passar do tempo, meu relacionamento com meu Mestre foi aumentando e nossos momentos juntos fizeram de nós grandes amigos.

Não havia mais segredo entre nós, eu confiava a Ele muitos dos meus sonhos e desejos. Um dia então decidi que era a hora de dar-lhe a minha mochila em suas mãos, para ser então organizada e limpa. Eram coisas preciosas e outras que na realidade apenas guardei por não saber o que fazer com elas, e por anos ali estiveram fazendo parte da minha vida sem que eu percebesse.

Ao abrir a mochila, meu Mestre tinha em seu rosto um misto de alegria e tristeza, não sabia bem como decifrar o que se passava em Sua mente, mas meu coração disparava e parecia saltar em meu peito. O que meu Mestre iria encontrar ali? Será que seu afeto por mim mudaria? Seria eu repreendida pelo que ali carreguei?

A medida que as coisas eram retiradas da mochila, percebi o quanto era grande, e quantas coisas tinham ali, como consegui carregar por tanto tempo aquele peso. Notei também que algumas coisas eram depositadas em uma cesta e outras separadas em sacos, onde se lia lixo, devolver e consertar. Observei atentamente que esses utensílios não estavam na mochila, mas o Mestre os tinha trazido junto para a nossa ministração.

Após longo tempo, que passou sem que eu notasse o tempo exato que levou, chegou à hora de recolocar as coisas na mochila. As que estavam separadas na cesta foram repostas sem muito falarmos, apenas notava o rosto do meu Mestre amado, dando lindos sorrisos quando pegava em suas mãos e os colocava em minha preciosa mochila.

Quando, porém, chegou à hora dos sacos, bem esses pareceram durar uma eternidade em algumas coisas, o saco de lixo nem quis discutir muito, apenas queria que eles fossem retirados dali rapidamente para que não ocupassem mais espaço em minha mochila e aliviasse o peso, já que eram extremamente pesadas.

Os sacos que mais marcaram foram devolver e consertar, eu vi ali relacionamentos quebrados, mágoas sofridas, respostas cortantes e a sensação de que eram as coisas pesadas que carregava. Decidi que muitas delas deviam ser devolvidas a quem as pertencia, não me cabiam mais resolvê-las. Com grata surpresa, meu Mestre se prontificou a cuidar delas por mim. Outras, porém coube a mim, a tarefa de consertá-las antes de guardá-las novamente. Outras, porém apenas dependiam de outros para serem restaurados, mas não deveriam ser recolocados na parte interna da mochila sem que uma decisão fosse feita.

A sábia decisão do meu Mestre de guardar essas coisas que precisavam de conserto nos bolsos externos fez com que eu não as esquecesse mais, elas estavam sempre por perto quando eu quisesse pegar as coisas do dia-a-dia.

Perceba então que carreguei muito peso desnecessário durante minha caminhada com o Mestre, uma carga que podia ter sido aliviada a muito tempo e não o foi. Mas tudo faz parte do aprendizado dizia meu Mestre, é necessário que tudo aconteça a seu tempo para melhor aproveitarmos. E como posso aproveitar hoje ao perceber que a mochila está mais leve e melhor utilizada.

Assim também funciona a nossa alma, quando decidimos ter mais intimidade com Deus e entregamos a Ele tudo o que temos para ser limpo e organizado.

Você já fez isso em sua vida? 

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